Área de Conhecimento

Nesta secção há o compartilhamento de artigos, textos, opiniões e ideias sobre assuntos que envolvem a nossa sociedade como um todo de forma a permitir o desenvolvimento de uma opinião crítica principalmente sobre situações que envolvem o nosso dia a dia, não apenas como pessoas, em nossas relações mais próximas, bem como aquelas interações profissionais.

Conhecimento Tácito e Inteligência Artificial, uma relação precípua

Ainda recente na área de engenharia e construção, responsável pela estruturação e implantação de inovações em processos industriais, certa vez tive como missão desenvolver novas soluções junto à área de produção de asfalto. Lembro que naqueles tempos a pesagem dos agregados (matérias-primas) costumava ser feita por balanças convencionais. A inserção de células de carga incluiu um importante novo requisito ao processo, a eficácia na dosagem de cada item que compõem o asfalto. Sem dúvida, uma inovação incremental. No entanto, havia ainda mais questões envolvidas. A adoção de um sistema de tecnologia, um software, em um plant industrial tornou possível a, até aquele momento, inédita chegada do computador a um ambiente produtivo tão austero. Desde então, através de um sistema supervisório todo o processo passou a ser controlado a partir de uma cabine climatizada localizada imediatamente ao lado de um robusto tambor giratório, que possuía um queimador, onde os agregados e o CAP, cimento asfáltico de petróleo, eram aquecidos e misturados, resultando na produção do asfalto propriamente dito.

O processo de implantação dessas inovações foi considerado um sucesso em que pese como exceções os equívocos na indicação da temperatura final do asfalto, uma informação crítica gerida por ávidos fiscais, ansiosos em rejeitar o seu lançamento na pista, evitando assim a medição do serviço e consequente pagamento. Sem termos a solução do problema, estávamos lá, uma equipe de engenheiros e técnicos atentos e reunidos para discutirmos aquela questão. A cada nova carga produzida, uma decepção. Às vezes o asfalto estava muito quente, outras, bem menos. Até que chegou ‘Seo’ Natalino. Aquele piauiense de poucas palavras chegara a empresa quando o fundador ainda era bem jovem. Rude e com hábitos pouco rebuscados, todo seu conhecimento, baseado em sua experiência do dia a dia, fora construído ao longo de mais de três décadas ‘amassando barro’, como as pessoas que trabalham em grandes obras costumam se auto definir. Sabedor do problema, ele se posicionou ao lado da área de descarga do pavimento e passou a informar a temperatura de cada carga de asfalto produzido. Sem qualquer equipamento, suas indicações eram certeiras. Era ele falar e, posteriormente, colocar o termômetro industrial para checar sua exatidão. Enquanto isso, a temperatura indicada no sistema recém instalado era um convite à incerteza.

Surpreso, comecei a tentar acompanhar o seu processo. Sem sucesso. Ao que parecia, nada explicava tamanha assertividade em seus ‘palpites’. Ao notar meu interesse, eis que, de forma bem simplória, veio em minha direção e falou: “...o sinho tá vendo aquela quantidade de fumacinhas que estão saindo daquelas pedrinhas bem pretinhas? E aquelas outras que estão meio clarinhas ainda? Pois então, quando isso acontece é porque a temperatura no queimador ainda está variando e por isso o asfalto fica fora da especificação.” Ainda que tenha respondido com um mentiroso “ah tá”, não tinha compreendido coisa alguma. O fato é que a explicação de ‘Seo’ Natalino estava perfeita e subsidiava inteiramente os resultados medidos. O motivo de sua assertividade estava baseado em todo o conhecimento tácito por ele obtido ao longo de tantos anos de experiência. Já a minha dificuldade de entendimento se devia, parcialmente, aos meus poucos anos de vivência no assunto, mas principalmente à dificuldade que temos, no caso também de ‘Seo’ Natalino, em explicar e compartilhar os conhecimentos tácitos. Tentemos, por exemplo, perguntar ao Rei Pelé, como refazer seus dribles, ou a alguém, como andar em uma bicicleta. O fato é que há coisas que aprendemos sem que haja a necessidade de capacitação formal, o conhecimento explícito, mas sim de maneira tácita, a partir de uma linha única de raciocínio, que embora possa ser repetida por outrem, mediante diferentes formas, dificilmente consegue ser eficientemente propagada.

Pois é exatamente por aí que se estreita o conceito da inteligência artificial (IA) ao do conhecimento tácito. Ela tem se tornado cada vez mais presente em nossos dias, justamente, por conta da consistente melhoria do processo de aprendizado de máquina (AM), a chamada capacidade das máquinas em incrementar seus desempenhos sem que haja, necessariamente, a ingerência decisiva de um ser humano. A construção desta maneira de agir se deve por conta dos mesmos conceitos que suportam a formação do conhecimento tácito e se baseia muito na adoção de um padrão, ainda que subjetivo de agir, o que na IA se torna de possível estruturação a partir do uso de algoritmos. Eis aí a grande sacada.

A partir de um histórico de ações tomadas diante cenários e condições específicas conhecidas, as máquinas ‘tomam suas decisões’ de maneira solitária. Esta condição só é possível por conta da aplicação desses algoritmos que acabam inserindo certa lógica ao processo de tomada de decisão. Algo similar ao que ‘Seo’ Natalino já fazia naquele tempo, também de forma estruturada, dentro de uma lógica muito própria, mas que, no entanto, não o dava condições de multiplicar isso aos outros que não tivessem passado pelo mesmo tempo de experiência que ele. É certo que a codificação do conhecimento tácito em explícito sempre tenha sido um importante obstáculo a ser vencido, o que está sendo agora possível graças ao surgimento de eficientes sistemas de aprendizado. São eles que, juntamente com o aumento de performance de processamento das máquinas, tem propiciado a consistente evolução da IA e sua inserção, agora, mais que nunca, no dia a dia.

Sendo assim, é inegável afirmar que os algoritmos que suportam a IA devem muito aqueles adotados por tantos ‘Seos’ Natalinos de todos os tempos.