Área de Conhecimento

Nesta secção há o compartilhamento de artigos, textos, opiniões e ideias sobre assuntos que envolvem a nossa sociedade como um todo de forma a permitir o desenvolvimento de uma opinião crítica principalmente sobre situações que envolvem o nosso dia a dia, não apenas como pessoas, em nossas relações mais próximas, bem como aquelas interações profissionais.

As falíveis práticas de gestão de pessoas

 Fomos 30, todos recém-formados, os contratados para formar uma nova área de desenvolvimento de produto em uma grande organização brasileira. Após um árduo processo seletivo, com os títulos de trainee, fomos mandados para o Clube de Campo, local onde passaríamos por diversos programas de treinamento ao longo de 3 meses. Chegávamos na segunda-feira pela manhã e lá ficávamos até o final da tarde de sexta-feira. Inegável afirmar que era alto o investimento feito pela empresa bem como as expectativas para aquele grupo, que passou a ser chamado de “Golden Boys”. Para gerir estes “talentos” foi alocado no cargo de gerente, Lincoln, um japonês sisudo, de poucas palavras, que houvera se destacado em alguns projetos recentes. 

Para melhor organizar o desenvolvimento das atividades, fomos divididos em dois grupos. Dessa maneira, as capacitações eram ministradas para turmas de 15 pessoas, o que, potencialmente, iria permitir maior aproveitamento. Tendo em vista evitar um clima de competição entre as turmas, a equipe de recursos humanos decidiu que os quartos seriam acomodados por duas pessoas, sendo uma de cada grupo. As refeições aconteciam em um enorme salão com todos os participantes, sendo que os locais na mesa eram previamente indicados, sempre obedecendo a regra que pessoas da mesma turma não ficassem ao lado uma da outra. A intenção de garantir maior integração entre as pessoas era grande, e, a princípio, tudo estava bem planejado. Parecia que nada evitaria o sucesso daquela iniciativa. Os primeiros dias foram de grande euforia. Confesso que, apesar da programação intensa de cursos, parecíamos estar em uma colônia de férias. Ao final dos dias sempre havia tempo para bater uma bolinha e aproveitar a piscina. Após algumas semanas até pequenas festas eram organizadas, normalmente às quintas-feiras. Quanto ao nosso futuro gestor, Lincoln, suas idas eram pontuais e seu discurso costumava seguir a linha: “...pessoal, aproveitem bem este tempo, pois logo logo terão que trabalhar muito...” Nada parecia soar mais ameaçador que suas palavras, certamente muito bem fundamentadas em suas práticas gerenciais. Os longos três meses de treinamento foram intensos e o convívio diário de trinta pessoas mais ainda. Ao final do período, o que se viu foram quase dezenas de grupos formados, quartos com mais de três integrantes, outros, até mesmo, vazios, cizânias declaradas, outras nem tanto e, até mesmo, alguns casais. Foi este grupo que se reuniu no último dia de treinamento, uma sexta-feira, para ouvir Lincoln, abrir a reunião com a frase: “Acabou a moleza, agora é hora de trabalhar...”

Logo na segunda pela manhã, duas pessoas passaram já para se despedir, tinham obtido oportunidades mais interessantes. Difícil imaginar como conseguiram isso, uma vez que tinham passado meses “internados” no treinamento. Não demorou muito para que as despedidas se tornassem frequentes. Em pouco mais de um mês, passamos a ser 23. Sem entender ao certo o que estava acontecendo, certa vez Lincoln chamou a todos para uma reunião. Confessou estar aborrecido com a quantidade de desistentes e que por conta disso queria saber: “Com quem poderei contar? Peço que se tiver alguém aqui insatisfeito, que fale agora para que possamos discutir o que podemos fazer para melhorar.” Diante o silêncio, ele falou: “Que bom, conto muito com vocês.” 

Após mais um mês o grupo caiu pela metade. 

Ao final do primeiro semestre do projeto, os “Golden Boys” foram incorporados a uma outra área. Simultaneamente a equipe de Recursos Humanos começara o processo de seleção do novo grupo de trainees para o próximo ano. Quanto a Lincoln foi transferido para um novo e promissor projeto no exterior. E eis que a vida se seguiu para todos.